21/07/2010


O Fantástico Semiárido Paraibano

Na semana passada (12 a 16 de julho) saímos numa expedição pelo Semiárido paraibano num grupo de 30 pessoas: alunos do ensino médio e professores de instituições públicas e privadas, universitários, pesquisadores e equipe técnica do Programa de Estudos e Ações Para o Semiárido - PEASA, da Universidade Federal de Campina Grande - UFCG e Fundação Parque Tecnológico da Paraíba –PAQTC, que resultou numa experiência riquíssima e belíssima, de grande aprendizado sobre a região para todos, mostrando entre outros achados o grande potencial turístico pouco conhecido.

Saímos de Campina Grande na segunda-feira (12), por volta das 8:30 h, em direção a Boqueirão, onde fizemos um passeio de Catamarã pelo Açude Epitácio Pessoa, que nos levou ao Hotel Chique-Chique, onde fomos muito bem recebidos pelo casal Fabiane e Lacir, que nos serviu um autêntico almoço regado a peixe, filé ao molho madeira entre outras delícias da culinária local. Lá começamos bem nossa viagem.

À tarde paramos em Cabaceiras, cidade encravada no Cariri paraibano, com sua tradição voltada para a criação de bode e o artesanato de couro. Visitamos a parte histórica e a cidade cinematográfica, cenário de filmes nacionais como “O Auto da Compadecida”, do conceituado e premiado cineasta Guel Arraes. Na volta uma parada para foto no letreiro “Roliude Nordestina” e seguimos para o Hotel Fazenda Pai Mateus, para vivenciar no Lajeto Pai Mateus um dos mais lindos pôr do sol já visto. O lugar tem algo místico, com suas histórias e crendices. No final da tarde as pedras ganham uma coloração alaranjada. É lá que ao deitar numa pedra a gente vê o mundo ao contrário. Uma viagem no espaço.

A noite no Hotel Pai Mateus foi em clima de diversão acompanhada de um baita frio atenuado por uma legítima fogueira onde foram contados muitos “causos” e piadas . Apesar do calor durante o dia a temperatura costuma ser baixa nessa época do ano no Cariri paraibano. O grupo se divertiu num forró pé de serra, quadrilha e cantoria improvisada. Na manhã seguinte, malas prontas, o grupo segue para conhecer a Saca de Lã, formação rochosa que simula o empilhamento de grandes fardos de algodão - daí o nome - localizado nas terras do Hotel Pai Mateus. Após uma pequena caminhada pela mata chegamos ao local onde a formação rochosa de beleza ímpar mostra-se imponente sob pequenas piscinas de água da chuva represadas entre as pedras. Lá tivemos uma aula prática com o profº Daniel Duarte (UFPB), doutor em Recursos Naturais e grande conhecedor do Semiárido paraibano. O Hotel Pai Mateus fica localizado na Área de Proteção Ambiental do Cariri – APA Cariri.

Continuamos nossa viagem com destino a São João do Cariri onde conhecemos O Instituto Histórico e Geographico do Cariry – IHGC, o Museu Regional do Cariry Balduíno Lellys, a igreja Matriz de Nossa Senhora dos Milagres e seus casarios históricos. Na zona rural conhecemos o Projeto Uruçu, de cultivo de alface e outras hortaliças em hidroponia, com a utilização de água dessalinizada, no sistema de cooperativa. O almoço foi no restaurante Recanto da Serra, zona rural de Serra Branca, aos pés da Serra do Jatobá ou Matinoré, onde nos foi servida a galinha de capoeira feita em fogão à lenha. O restaurante fica escondido sob pedras e dispõe de uma infra-estrutura rústica, com redes armadas em troncos de uma frondosa árvore (Tambor, Tamboril, Timbaúba, Timbaúva), denominado “Lugar da Preguiça”, que nos convida para um deleite repouso após o almoço.

Viajamos mais alguns quilômetros até chegar ao Projeto Duas Serras, de produção e beneficiamento de castanha de caju. Os expedicionários conheceram todas as etapas: da castanha , cozimento, fritura, até chegar ao processo de embalagem. É claro que aproveitamos para degustar essa delícia crocante. Já era noite, mais de 20 horas, quando chegamos no Casarão do Jabre, em Maturéia, pertencente a Dalvanete Dantas, após um dia de muito aprendizado e vários quilômetros rodados. Jantamos e assistimos ao filme “Lisbela e o Prisioneiro”. Todos estávamos super cansados e fomos dormir logo. Uma parte do grupo se hospedou na Pousada Bom Conselho, de Dona Gema, senhora muito gentil que recebeu todos com a hospitalidade costumeira do povo do Sertão. Não precisa nem dizer que a noite por lá estava bastante fria, pois nos hospedamos ao redor do Parque Estadual Pico do Jabre. O Pico do Jabre, que dá nome à unidade, tem 1.197m de altitude em relação ao nível do mar e é o terceiro ponto mais elevado do Nordeste brasileiro.

Amanheceu muito frio. O Pico do Jabre estava coberto de neblina. Mas, espantamos o frio e fomos ao que nos esperava: Subir o Pico do Jabre. Do ponto onde ficam os automóveis foram 1.800 metros de subida. Cada curva se tornava mais inclinada, e mais e mais até chegar ao topo. A subida requer esforço e muita força de vontade, principalmente para os despreparados fisicamente, gordinhos ou idosos. Em dado momento começamos a tentar subir de costas para aliviar o esforço nas pernas. Hora subíamos de frente, hora de costas ou mesmo em ziguezague.
Vale destacar que todos da equipe conseguiram subir, no seu ritmo é bem verdade, mas alcançaram o objetivo que era alcançar o pico. Liiiiiiiinnnnnnnnda a vista lá de cima. De perder o fôlego. Após nos deleitarmos com aquela vasta imensidão que se descortinava lá embaixo era hora de descer. Foi aí que alguns começaram a sentir as carnes da batata da perna tremerem. Reclamaram que descer foi mais difícil do que subir.

Todos no ônibus seguimos para Maturéia onde paramos para comprar o artesanato local representado principalmente por “loiças” de barro finamente produzidas. Praticamente esgotamos o estoque. Almoçamos no restaurante Pedra do Tendó, já no município de Teixeira. Comida caseira gostosa e barata com direito a baião de dois, buchada de bode, carne assada e galinha guisada. Aproveitamos para subir e tirar umas fotos na Pedra do Tendó. Dizem os populares da região que matavam os “infelizes” e jogavam o corpo lá de cima da Pedra do Tendó. Entretanto, “Tendó” é uma corruptela de um sobrenome: Tendol. Este Tendol foi um dos primeiros proprietários do local que hoje leva seu nome. Assim nos informou o proprietário do restaurante.

Seguimos para a Estância Termal Brejo das Freiras, em São João do Rio do Peixe, onde pernoitamos e tivemos uma manhã de lazer na piscina e todo o usufruto que o hotel tem a oferecer: o banho de lama medicinal e a ducha de água quente. Lá conseguimos acesso a internet e a disputa era pelos computadores para atualizar o orkut com fotos do passeio. Os mais jovens começaram a trocar fotos e ver quem tinha registrado ângulo melhor, etc. Uma parte da equipe técnica se deslocou até a sede do município no sentido de adquirir acervo para o Museu Interativo do Semiárido, coordenado pelo Peasa/UFCG. Voltaram de lá com uma verdadeira “feira de mangaio” com muitas peças valiosas.

Após o almoço fomos conhecer o Vale dos Dinossauros, em Sousa. O guia, Robson Marques, bisneto do homem que descobriu as pegadas, nos levou para ver os rastros dos animais pré-históricos que habitaram o lugar. É uma pena ver o Parque dos Dinossauros (as réplicas dos animais quebradas, a ponte de acesso danificada) em total abandono. Falta aí a intervenção dos poderes públicos em preservar o que a história nos deixou, além de ser bom para o turismo local. Mesmo assim o passeio foi uma aula para os expedicionários.

De Sousa pegamos a estrada para Araruna. A Pedra da Boca foi nosso próximo destino. Na viagem de volta paramos em Aparecida para apreciar o artesanato de redes local e degustar o doce caseiro produzido na região. De Sousa para Araruna foi o trecho mais longo da viagem. Foram mais de sete horas de viagem. Estava bastante fria a noite em Araruna. Nos encontramos com um grupo de escaladores na Pousada Araruna, onde nos hospedamos, e já começamos a nos informar sobre o passeio do dia seguinte no Parque Estadual Pedra da Boca; as dificuldades que poderíamos encontrar em caso de amanhecer chovendo como pedras escorregadias, cavernas alagadas etc.
A trilha no Parque Estadual Pedra da Boca se revelou uma grande aventura. Conhecemos não só a pedra da boca, como várias outras, à exemplo da pedra do coelho, pedra da caveira, pedra do peixe-boi, e não chegamos a ver, mas soubemos que também tem a pedra do coração, onde um casal de escaladores, inclusive, chegou a trocar alianças. O guia que contratamos Ricardo Henrique nos levou para conhecer o bosque das mangueiras, o bosque dos escaladores, a pedra do fôrno (onde os índios costumavam fazer suas comidas).

Fizemos ainda a trilha da cama do caçador. Uma parte do grupo entrou na gruta onde o caçador dormia. Tinha parte que só dava para passar de um por um. Apoiávamos-nos em cipós e galhos das árvores para subir as pedras, além de contar com a ajuda valiosa dos colegas que iam à frente. A orientação do guia era para não falar alto para não espantar abelhas que poderiam habitar as árvores e nem colocar as mãos nos olhos, para não pegar alguma irritação proveniente das pedras que tocamos.

O Parque mostra as riquezas da flora e fauna do Semiárido, com suas pedras, grutas e tanques de água da chuva. Após sair da gruta seguimos pela trilha até a Pedra do Letreiro (com inscrições rupestres), no Santuário de Nossa Senhora de Fátima, localizado no Parque Pedra da Boca. Não preciso dizer que essa foi uma aventura maravilhosa junto à natureza. Para ver as fotos basta acessar www.museusemiarido.org.br, clicar no nome Fotos e acessar cada dia de aventura.

Quando já estávamos saindo do Parque começou a chover. Mas, a chuva não espantou o entusiasmo do pessoal que ainda aproveitou bastante as belezas da Cachoeira do Roncador, que fica nos limites de Pirpirituba, Borborema e Bananeiras, onde paramos na volta para casa para almoçar antes de retornar para Campina Grande, encerrando no final da tarde nossa expedição pelo fantástico Semiárido paraibano.

A expedição foi o prêmio dado aos vencedores do concurso de redação e artigos científicos promovido pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), através do Programa de Estudos e Ações Para o Semiárido, e Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, com o apoio do BNB, Banco do Brasil, Escola Virgem de Lourdes, SEBRAE e Data Shop.

Artigo de Helda Suene (Jornalista)

Com a colaboração do profº Daniel Duarte.