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O sul do Sudão é um dos lugares mais pobres do mundo. Esta afastada
cidade não tem energia elétrica nem água encanada, e está a 240km da
rua pavimentada mais próxima. Mesmo assim, graças a um notável jovem
americano que cresceu aqui – e aos leitores que os apoiaram – a cidade
se tornou um ímã para jovens sudaneses que sonham com uma educação.
Vindos de lugares a centenas de quilômetros de distância, meninos e meninas chegam aqui na esperança de serem aceitos numa nova escola em tempo integral. É uma ideia que saiu da mente de Valentino Achak Deng, cuja fuga da guerra e da fome é relatada no livro campeão de vendas “What Is the What”, de Dave Eggers. Valentino foi separado de sua família durante a guerra civil no Sudão e passou sua infância esquivando-se de soldados, minas terrestres, leões e outros perigos. Ele aprendeu a ler e escrever rabiscando letras no chão empoeirado de um campo de refugiados. Em 2001, ele foi aceito nos Estados Unidos como refugiado. Valentino conseguiu passar pela universidade – e então ficou determinado a devolver o que aprendeu. “Muitas pessoas confiaram em mim, me apoiaram, por isso senti uma responsabilidade especial”, disse ele. “Queria mostrar que havia um motivo para eu sobreviver”. Dave e Valentino canalizaram os lucros do livro para iniciar a escola. Agora, a instituição está selecionando alunos para o segundo ano acadêmico. Mais de mil pessoas, entre eles adultos cujos estudos foram adiados pela guerra, estão competindo por 150 vagas para a nona série. Conheço e admiro Valentino há anos e escrevi sobre sua escola em dezembro do ano passado, o que levou a US$ 400 mil em contribuições de leitores. Então, decidi visitar o local e ver o que as doações tinham conquistado. Valentino contratou professores de primeira, construiu novos prédios e ergueu dois dormitórios para as meninas (pelo menos metade dos alunos serão meninas). Na noite em que passei naquela cabana com teto de palha – alojamento dos professores – um caminhão chegou com as camas e os colchões dos dormitórios, adquiridos em Uganda. Quase nada se pode comprar ali na região. Vinte e cinco meninas vão dormir num quarto, mas os dormitórios vão expandir enormemente as oportunidades educacionais das jovens daqui. No ano passado, em todo o sul do Sudão, apenas onze meninas fizeram exames de graduação do ensino médio, segundo estatísticas do governo. Uma das estatísticas mais dolorosas do sul do Sudão é a seguinte:
com base em dados oficiais, uma menina tem muito mais chances de acabar
morrendo de parto do que completar a educação primária. O resultado é que essa única escola, que atende a alunos de todo o sul do Sudão, irá expandir consideravelmente o número de meninas que se formam na escola secundária. A escola é gratuita, a única esperança para alunos brilhantes que não têm dinheiro para pagar pela instrução, mas os próprios alunos se encarregam da limpeza e da manutenção. Os contatos de Valentino ajudam a trazer professores voluntários americanos no verão; eles aguentam banhos de balde, latrinas e um calor infernal, mas ganham a lealdade incondicional dos alunos. O resto da equipe também é pouco comum. O cozinheiro, Achol Mayol Juach, foi seqüestrado por mercadores de escravos em 1986, quando tinha sete anos, e escravizado no norte por quase duas décadas antes de escapar com a ajuda de um agente humanitário da Christian Solidarity International. Valentino quer que a escola seja multi-étnica, incluindo estudantes árabes muçulmanos associados a tribos do norte que arruinaram o sul durante a guerra civil. Ele tem estudantes envolvidos em projetos sociais, como a construção de cabanas para desalojados, e está focado em nutrir líderes que possam construir um país mais pacífico e próspero. Operar uma escola numa área tão remota é um desafio incrível. Os computadores são alimentados por geradores ou energia solar. Autoridades do governo insistem para que Valentino aceite seus filhos na escola, mas ele explica delicadamente que a aceitação só depende das notas dos exames de admissão (ele só dá preferência a um grupo específico: órfãos).
Doações recentes permitiram que a escola construísse uma biblioteca, carente de livros. Valentino considerou a possibilidade de despachar livros para o Quênia
e depois trazê-los de caminhão, mas descobriu que teria de pagar
impostos proibitivos sobre importação. A escola não é uma solução para os problemas do Sudão. A instituição só
irá educar uma proporção mínima dos jovens sudaneses que anseiam por um
futuro melhor. Mas é um estímulo enorme numa terra tão cheia de
problemas. E é um lembrete de que às vezes os lugares mais desesperados
e desolados do mundo são os mais cheios de nobreza e esperança. (Portal G1.com) |
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06/05/2010 |
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